Luis de Camões
1524–1580
Luís de Camões (c. 1524–1580) was a Portuguese poet, regarded as the greatest writer in the Portuguese language. He served as a soldier, losing an eye in North Africa, and spent seventeen years in Asia, in Goa and Macau; according to tradition he saved the manuscript of his epic from a shipwreck off the Mekong.
His epic Os Lusíadas (1572) celebrates Vasco da Gama’s voyage to India and the history of Portugal. His sonnets and lyrics, such as “Amor é fogo que arde sem se ver”, are among the finest love poems of the Renaissance. Portugal’s national day, 10 June, marks the date of his death.
Best-known poems
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Alma minha gentil, que te partiste
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Ceo eternamente, … -
Amor é fogo que arde sem se ver
L’Amour : un feu qui brûle sans se voir,
Une forte blessure qu’on ne sent ;
C’est un contentement mais mécontent …
All poems (290)
A 32
- A chaga que, Senhora, me fizestesNão foi para curar-se em hum só dia;
- A formosura desta fresca serraE a sombra dos verdes castanheiros,
- Á la margen del Tajo, en claro diaCon rayado marfil peinando estaba
- A Morte, que da vida o nó desataOs nós, que dá o Amor, cortar quizera
- A peregrinação d'hum pensamentoQue dos males fez hábito e costume,
- A perfeição, a graça, o doce geitoA Primavera cheia de frescura,
- A violeta mais bella que amanheceNo valle por esmalte da verdura,
- Acho-me da fortuna salteadoO tempo vai fugindo presuroso,
- Agora toma a espada, agora a penaEstacio nosso, em ambas celebrado,
- Ah Fortuna cruel! ah duros Fados!Quão asinha em meu damno vos mudastes!
- Ah minha Dinamene! assi deixasteQuem nunca deixar pôde de querer-te!
- Ai amiga cruel! que apartamentoHe este que fazeis da patria terra?
- Alegres campos, verdes arvoredosClaras e frescas águas de crystal,
- Alegres campos, verdes, deleitososSuaves me serão vossas boninas,
- Alma gentil, que á firme eternidadeSubiste clara e valerosamente,
- Alma minha gentil, que te partisteTão cedo desta vida descontente,
- Amor é um fogo que arde sem se verAmor he hum fogo que arde sem se ver;
- Amor, com a esperança ja perdidaTeu soberano templo visitei:
- Amor, que em sonhos vãos do pensamentoPaga o zêlo maior de seu cuidado,
- Amor, que o gesto humano na alma escreveVivas faiscas me mostrou hum dia,
- Aos homens hum só homem poz espantoE o poz a toda a humana natureza;
- Apartava-se Nise de MontanoEm cuja alma, partindo-se, ficava;
- Apollo e as nove Musas, descantandoCom a dourada lyra, me influião
- Aponta a bella Aurora, luz primeiraQue a grã nova nos deo do claro dia:
- Aquela triste e leda madrugadaAquella triste e leda madrugada,
- Aquella fera humana que enriqueceA sua presunçosa tyrannia
- Aquella que, de pura castidadeDe si mesma tomou cruel vingança
- Aqui de longos damnos breve historiaVerão os que se jactão de amadores:
- Ar, que de meus suspiros vejo cheioTerra, cansada ja com meu tormento;
- Árvore, cujo pomo bello e brandoNatureza de leite e sangue pinta,
- Ay! quien dará á mis ojos una fuenteDe lágrimas que manen noche y dia?
- Ayudame, Señora, á hacer venganzaDe tal selvatiquez, de tal rudeza,
B 3
C 18
- Cá nesta Babylonia donde manaMateria a quanto mal o mundo cria;
- Campo! nas syrtes deste mar da vidaApos naufragios seus taboa segura;
- Cantando estava hum dia bem seguroQuando passava Sylvio, e me dizia:
- Chara minha inimiga, em cuja mãoPoz meus contentamentos a ventura,
- Chorai, Nymphas, os fados poderososDaquella soberana formosura.
- Coitado! que em hum tempo chóro e rioEspero e temo, quero e aborreço;
- Com grandes esperanças ja canteiCom que os deoses no Olympo conquistára;
- Como fizeste, ó Porcia, tal ferida?Foi voluntaria, ou foi por innocencia?
- Como louvarei eu, Seraphim santoTanta humildade, tanta penitencia,
- Como podes (oh cego peccador!)Estar em teus errores tão isento,
- Como quando do mar tempestuosoO marinheiro todo trabalhado,
- Con razon os vais, aguas, fatigandoPor llegar dó sereis bien recebidas;
- Contente vivi ja, vendo-me isentoDeste mal de que a muitos queixar via:
- Conversação doméstica affeiçoaOra em fórma de limpa e sãa vontade,
- Correm turbas as águas deste rioQue as rapidas enchentes enturbárão;
- Crescei, desejo meu, pois que a VenturaJa vos t[~e]e nos seus braços levantado;
- Criou a natureza Damas bellasQue forão de altos plectros celebradas;
- Cuanto tiempo ha que lloro un dia tristeComo si alguno alegre yo esperara?
D 31
- Dai-me h[~u]a lei, Senhora, de querer-vosPorque a guarde sobpena de enojar-vos;
- De amor escrevo, de amor trato e vivoDe amor me nasce amar sem ser amado;
- De Babel sôbre os rios nos sentámosDe nossa doce patria desterrados,
- De cá, donde somente o imaginar-vosA rigorosa ausencia me consente,
- De frescas belvederes rodeadasEstão as puras águas desta fonte;
- De mil suspeitas vãas se me levantãoTrabalhos e desgostos verdadeiros.
- De quantas graças tinha a naturezaFez hum bello e riquissimo thesouro;
- De tão divino accento em voz humanaDe elegancias que são tão peregrinas,
- De vós me parto, ó vida, e em tal mudançaSinto vivo da morte o sentimento.
- Debaixo desta pedra está metidoDas sanguinosas armas descansado,
- Debaixo desta pedra sepultadaJaz do mundo a mais nobre formosura,
- Deixa Apollo o correr tão apressadoNão sigas essa Nympha tão ufano:
- Desce do ceo immenso Deos beninoPara encarnar na Virgem soberana.
- Despois de haver chorado os meus tormentosQuer Amor que lhe cante as suas glorias.
- Despois de tantos dias mal gastadosDespois de tantas noites mal dormidas,
- Despois que quiz Amor que eu só passasseQuanto mal ja por muitos repartio,
- Despois que vio Cibele o corpo humanoDo formoso Atys seu verde pinheiro,
- Diana prateada, esclarecidaCom a luz que do claro Phebo ardente,
- Ditosa penna, como a mão que a guiaCom tantas perfeições da subtil arte,
- Ditosas almas, que ambas juntamenteAo ceo de Venus e de Amor voastes,
- Ditoso seja aquelle que somenteSe queixa de amorosas esquivanças;
- Diversos dões reparte o Ceo beninoE quer que cada huma alma hum só possua;
- Divina companhia, que nos pradosDo claro Eurotas, ou no Olympo monte,
- Dizei, Senhora, da belleza idêaPara fazerdes esse aureo crino,
- Doce contentamento ja passadoEm que todo o meu bem só consistia,
- Doce sonho, suave e soberanoSe por mais longo tempo me durára!
- Doces e claras águas do MondegoDoce repouso de minha lembrança,
- Doces lembranças da passada gloriaQue me tirou fortuna roubadora,
- Dos antigos Illustres, que deixárãoHum nome digno de immortal memoria,
- Dos ceos á terra desce a mor BellezaUne-se á nossa carne, e a faz nobre;
- Dulces engaños de mis ojos tristesCuan vivo despertais mi pensamiento!
E 20
- Em Babylonia sôbre os rios, quandoDe ti, Sião sagrada, nos lembrámos,
- Em flor vos arrancou, de então crescida(Ah Senhor Dom Antonio!) a dura sorte
- Em formosa Lethea se confiaPor onde vaidade tanta alcança,
- Em huma lapa toda tenebrosaAdonde bate o mar com furia brava,
- Em prisões baixas fui hum tempo atadoVergonhoso castigo de meus erros:
- Em quanto Phebo os montes accendiaDo ceo com luminosa claridade,
- Em quanto quiz fortuna que tivesseEsperança de algum contentamento,
- En una selva al dispuntar del diaEstaba Endimion triste y lloroso,
- Erros meus, ma Fortuna, Amor ardenteEm minha perdição se conjurárão:
- Esfôrço grande, igual ao pensamentoPensamentos em obras divulgados,
- Espanta crescer tanto o crocodiloSó por seu limitado nascimento;
- Esses cabellos louros e escolhidosQue o ser ao aureo sol estão tirando;
- Está o lascivo e doce passarinhoCom o biquinho as pennas ordenando;
- Está-se a Primavera trasladandoEm vossa vista deleitosa e honesta;
- Este amor, que vos tenho limpo e puroDe pensamento vil nunca tocado,
- Este terreste caos com seus vaporesNão póde condensar as nuvens tanto,
- Eu cantarei de amor tão docementePor huns termos em si tão concertados,
- Eu cantei ja, e agora vou chorandoO tempo que cantei tão confiado:
- Eu me aparto de vós, Nymphas do TejoQuando menos temia esta partida;
- Eu vivia de lagrimas isentoN'hum engano tão doce e deleitoso,
F 7
- Ferido sem ter cura pereciaO forte e duro Télepho temido
- Fiou-se o coração, de muito isentoDe si, cuidando mal que tomaria
- Foi ja n'hum tempo doce cousa amarEm quanto me enganou huma esperança:
- Formosa Beatriz, tendes taes geitosN'hum brando revolver dos olhos bellos,
- Formosos olhos, que cuidado daisÁ mesma luz do sol mais clara e pura;
- Formosos olhos, que na idade nossaMostrais do Ceo certissimos signais,
- Formosura do Ceo a nós descidaQue nenhum coração deixas isento,
G 3
H 5
- He o gozado bem em água escritoVive no desejar, morre no effeito:
- Horas breves de meu contentamentoNunca me pareceo, quando vos tinha,
- Hum firme coração posto em venturaHum desejar honesto, que se engeite
- Hum mover de olhos, brando e piedosoSem ver de que; hum riso brando e honesto,
- Huma admiravel herva se conheceQue vai ao sol seguindo de hora em hora,
I 4
J 8
- Ja a roxa e branca Aurora destoucavaOs seus cabellos de ouro delicados,
- Ja cantei, ja chorei a dura guerraPor Amor sustentada longos anos;
- Ja claro vejo bem, ja bem conheçoQuanto augmentando vou o meu tormento;
- Ja do Mondego as águas apparecemA meus olhos, não meus, antes alheios,
- Ja he tempo, ja, que minha confiançaSe desça de huma falsa opinião:
- Ja me fundei em vãos contentamentosQuando delles vivi todo enganado
- Ja não sinto, Senhora, os desenganosCom que minha affeição sempre tratastes,
- Julga-me a gente toda por perdidoVendo-me, tão entregue a meu cuidado,
L 8
- Las peñas retumbaban al gemidoDel misero zagal, que lamentaba
- Leda serenidade deleitosaQue representa em terra hum paraiso;
- Lembranças de meu bem, doces lembrançasQue tão vivas estais nesta alma minha,
- Lembranças saudosas, se cuidaisDe me acabar a vida neste estado,
- Lembranças, que lembrais o bem passadoPara que sinta mais o mal presente,
- Levantai, minhas Tagides, a frenteDeixando o Tejo ás sombras nemorosas;
- Lindo e subtil trançado, que ficasteEm penhor do remedio que mereço,
- Los ojos que con blando movimientoAl pasar enternecen la alma mia,
M 7
- Mal, que de tempo em tempo vás crescendoQuem te visse de hum bem acompanhado!
- Males, que contra mim vos conjurastesQuanto ha de durar tão duro intento?
- Mi gusto y tu beldad se desposaronTerceros por mi mal mis ojos fueron:
- Mil veces entre sueños tu figuraO bella Ninfa, claramente veo;
- Mil vezes determino não vos verPor ver se abranda mais o meu penar:
- Moradoras gentis e delicadasDo claro e aureo Tejo, que metidas
- Mudam-se os tempos, mudam-se as vontadesMudão-se os tempos, mudão-se as vontades,
N 21
- N'hum bosque, que das Nymphas se habitavaSibella, Nympha linda, andava hum dia;
- N'hum jardim adornado de verduraQue esmaltavão por cima várias flores,
- N'hum tão alto lugar, de tanto preçoEste meu pensamento posto vejo,
- Na desesperação ja repousavaO peito longamente magoado,
- Na margem de hum ribeiro, que fendiaCom liquido crystal hum verde prado,
- Na metade do ceo subido ardiaO claro, almo Pastor, quando deixavão
- Na ribeira do Euphrates assentadoDiscorrendo me achei pela memoria
- Naiades, vós que os rios habitaisQue os saudosos campos vão regando,
- Não ha louvor que arribe á menor parteDe quanto em vós se vê, bella Senhora:
- Não passes, caminhante. Quem me chama?H[~u]a memoria nova e nunca ouvida,
- Não vás ao monte, Nise, com teu gadoQue lá vi que Cupido te buscava:
- Nas Cidades, nos bosques, nas florestasNos valles, e nos montes, teus louvores
- Nem o tremendo estrépito da guerraCom armas, com incendios espantosos
- No bastaba que amor puro y ardientePor términos la vida me quitase;
- No mundo poucos annos e cansadosVivi, cheios de vil miseria e dura:
- No mundo quiz o Tempo que se achasseO bem que por acêrto, ou sorte vinha;
- No regaço de mãe Amor estavaDormindo tão formoso, que movia
- No tempo que de amor viver sohiaNem sempre andava ao remo ferrolhado;
- Nos braços de hum Sylvano adormecendoSe estava aquella Nympha qu'eu adoro,
- Novos casos de Amor, novos enganosEnvoltos em lisonjas conhecidas;
- Nunca em amor damnou o atrevimentoFavorece a Fortuna a ousadia;
O 26
- O ceo, a terra, o vento socegadoAs ondas que se estendem por a areia,
- O claras águas deste blando rioQue en vos al natural estais pintando
- O culto divinal se celebravaNo templo donde toda criatura
- O cysne quando sente ser chegadaA hora que põe termo á sua vida,
- O dia em que eu nasci, morra e pereçaNão o queira jamais o tempo dar,
- O filho de Latona esclarecidoQue com seu raio alegra a humana gente,
- O fogo que na branda cera ardiaVendo o rosto gentil, que eu na alma vejo,
- O raio crystallino se estendiaPor o mundo da Aurora marchetada,
- Oh Arma unicamente só triumphantePropugnaculo só de nossas vidas,
- Oh cese ya, Señor, tu dura mano!No llegues tanto al cabo con mi vida;
- Oh como se me alonga de anno em anoA peregrinação cansada minha!
- Oh quanto melhor he o supremo diaDa mansa morte, que o do nascimento!
- Oh quão caro me custa o entender-teMolesto Amor que, só por alcançar-te,
- Oh rigorosa ausencia desejadaDe mi sempre, mas nunca conhecida!
- Olhos, aonde o Ceo com luz mais puraQuiz dar de seu poder claros signais,
- Ondados fios de ouro reluzenteQue agora da mão bella recolhidos,
- Ondados fios de ouro, onde enlaçadoContinuamente tenho o pensamento;
- Onde acharei lugar tão apartadoE tão isento em tudo da ventura,
- Onde mereci eu tal pensamentoNunca de ser humano merecido?
- Onde porei meus olhos que não vejaA causa de que nasce o meu tormento?
- Orfeo enamorado que tañiaPor la perdida Ninfa que buscaba,
- Ornou sublime esfôrço ao grande AtlanteCom qu'a celeste máchina sustenta;
- Os meus alegres, venturosos diasPassárão, como raio, brevemente;
- Os olhos onde o casto Amor ardiaLedo de se ver nelles abrazado;
- Os Reinos e os Imperios poderososQue em grandeza no mundo mais crescêrão;
- Os vestidos Elisa revolviaQue Eneas lhe deixára por memoria;
P 17
- Para se namorar do que criouTe fez Deos, sacra Phenix, Virgem pura.
- Passo por meus trabalhos tão isentoDe sentimento grande nem pequeno,
- Pede o desejo, Dama, que vos veja:Não entende o que pede; está enganado.
- Pensamentos, que agora novamenteCuidados vãos em mi resuscitais,
- Pois meus olhos não cansão de chorarTristezas não cansadas de cansar-me;
- Pois torna por seu Rei e juntamentePor Christo a governar aquella parte
- Por cima destas águas forte e firmeIrei aonde os Fados o ordenárão,
- Por gloria tuve un tiempo el ser perdidoPerdíame de puro bien ganado;
- Por os raros extremos que mostrouEm sábia Pallas, Venus em formosa,
- Por sua Nympha Céphalo deixavaA Aurora, que por elle se perdia,
- Porque a tamanhas penas se offerecePor o peccado alheio, e êrro insano,
- Porque a terra no ceo agasalhasseO ceo na terra Deos agasalhou:
- Porque quereis, Senhora, que offereçaA vida a tanto mal como padeço?
- Posto me t[~e]e fortuna em tal estadoE tanto a seus pés me t[~e]e rendido!
- Presença bella, angelica figuraEm quem quanto o Ceo tinha nos t[~e]e dado;
- Pues lágrimas tratais, mis ojos tristesY en lágrimas pasais la noche y dia,
- Pues siempre sin cesar, mais ojos tristesEn lágrimas tratais la noche el dia,
Q 29
- Qu'estilla a Arvore sacra? Hum licor santoPara quem? Para o genero he humano.
- Qual t[~e]e a borboleta por costumeQu'enlevada na luz da acesa vella,
- Quando a suprema dor muito me apertaSe digo que desejo esquecimento,
- Quando da bela vista e doce risoQuando da bella vista e doce riso
- Quando de minhas mágoas a compridaMaginação os olhos me adormece,
- Quando o sol encoberto vai mostrandoAo mundo a luz quieta e duvidosa,
- Quando os olhos emprégo no passadoDe quanto passei me acho arrependido;
- Quando se vir com água o fogo arderJuntar-se ao claro dia a noite escura,
- Quando vejo que meu destino ordenaQue, por me exprimentar, de vós me aparte,
- Quando, Senhora, quiz Amor qu'amasseEssa grã perfeição e gentileza,
- Quanta incerta esperança, quanto engano!Quanto viver de falsos pensamentos!
- Quantas penas, Amor, quantos cuidadosQuantas lagrimas tristes sem proveito,
- Quantas vezes do fuso se esqueciaDaliana, banhando o lindo seio,
- Quanto tempo, olhos meus, com tal lamentoVos hei de ver tão tristes e aggravados?
- Que doudo pensamento he o que sigo?Apos que vão cuidado vou correndo?
- Que esperais, esperança? DesespéroQuem disso a causa foi? H[~u]a mudança.
- Que levas, cruel Morte? Hum claro diaA que horas o tomaste? Amanhecendo.
- Que me quereis perpétuas saudades?Com qu'esperanças inda me enganais?
- Que modo tão subtil da naturezaPara fugir ao mundo e seus enganos!
- Que poderei do mundo ja quererPois no mesmo em que puz tamanho amor,
- Que vençais no Oriente tantos ReisQue de novo nos deis da India o Estado,
- Quem diz que Amor he falso, ou enganosoLigeiro, ingrato, vão, desconhecido,
- Quem fosse acompanhando juntamentePor esses verdes campos a avezinha,
- Quem jaz no grão sepulchro, que descreveTão illustres signaes no forte escudo?
- Quem póde livre ser, gentil SenhoraVendo-vos com juizo socegado,
- Quem pudéra julgar de vós, SenhoraQue huma tal fé pudesse assi perder-vos?
- Quem quizer ver d'amor huma excellenciaOnde sua fineza mais se apura,
- Quem vê, Senhora, claro e manifestoO lindo ser de vossos olhos bellos,
- Quem, Senhora, presume de louvar-vosCom discurso que baixe de divino,
R 1
S 28
- Se a fortuna inquieta e mal olhadaQue a justa lei do Ceo comsigo infama,
- Se algum'hora essa vista mais suaveAcaso a mi volveis, em hum momento
- Se as penas com que Amor tão mal me trataPermittirem que eu tanto viva dellas,
- Se com desprezos, Nympha, te pareceQue podes desviar do seu cuidado
- Se como em tudo o mais fostes perfeitaForeis de condição menos esquiva,
- Se da célebre Laura a formosuraHum numeroso cysne ufano escreve,
- Se despois de esperança tão perdidaAmor por causa alguma consentisse
- Se em mim, ó alma, vive mais lembrançaQue aquella só da gloria de querer-vos,
- Se lagrimas choradas de verdadeO marmore abrandar podem mais duro,
- Se me vem tanta gloria só de olhar-teHe pena desigual deixar de ver-te;
- Se no que tenho dito vos offendoNão he a intenção minha de offender-vos;
- Se pena por amar-vos se mereceQuem della estará livre? quem isento?
- Se quando vos perdi, minha esperançaA memoria perdêra juntamente
- Se somente hora alguma em vós piedadeDe tão longo tormento se sentíra,
- Se tanta pena tenho merecidaEm pago de soffrer tantas durezas;
- Se tomo a minha pena em penitenciaDo error em que cahio o pensamento,
- Seguia aquelle fogo, que o guiavaLeandro, contra o mar e contra o vento;
- Sempre a Razão vencida foi de AmorMas, porque assi o pedia o coração,
- Sempre, cruel Senhora, receeiMedindo vossa grã desconfiança,
- Senhor João Lopes, o meu baixo estadoHontem vi posto em grao tão excellente,
- Senhora ja desta alma, perdoaeDe hum vencido de Amor os desatinos,
- Senhora minha, se eu de vós ausenteMe defendêra de hum penar severo,
- Sentindo-se alcançada a bella esposaDe Céphalo no crime consentido,
- Sete anos de pastor Jacob serviaSete annos de pastor Jacob servia
- Si el fuego que me enciende, consumidoDe algun mas suelto Aquario ser pudiese;
- Sôbre os rios do Reino escuro, quandoTristes, quaes nossas culpas o ordenárão,
- Suspiros inflammados que cantaisA tristeza com que eu vivi tão ledo,
- Sustenta meu viver huma esperançaDerivada de hum bem tão desejado,
T 9
- T[~e]e feito os olhos neste apartamentoHum mar de saudosa tempestade,
- Tal mostra de si dá vossa figuraSibela, clara luz da redondeza,
- Tanto de meu estado me acho incertoQue em vivo ardor tremendo estou de frio;
- Tanto se forão, Nympha, costumandoMeus olhos a chorar tua dureza,
- Todo animal da calma repousavaSó Liso o ardor della não sentia;
- Tomava Daliana por vingançaDa culpa do pastor que tanto amava,
- Tomou-me vossa vista soberanaAdonde tinha as armas mais á mão,
- Tornae essa brancura á alva assucenaE essa purpurea côr ás puras rosas;
- Transforma-se o amador na cousa amadaPor virtude do muito imaginar:
V 10
- Vencido está de amor Meu pensamentoO mais que póde ser, Vencida a vida,
- Verdade, Amor, Razão, MerecimentoQualquer alma farão segura e forte;
- Verdes são os campospor Luís Vaz de Camões
- Vi queixosos de Amor mil namoradosE nenhuns inda vi com seus louvores;
- Vós outros, que buscais repouso certoNa vida, com diversos exercicios;
- Vós só podeis, sagrado EvangelistaAngelico abrazado Seraphim,
- Vós, Nymphas da Gangetica espessuraCantae suavemente, em voz sonora,
- Vós, que de olhos suaves e serenosCom justa causa a vida captivais,
- Vós, que escuitais em Rimas derramadoDos suspiros o som que me alentava
- Vossos olhos, Senhora, que competemCom o sol em belleza e claridade,